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CAPOEIRA MALÊS
Bem vindo ao Grupo Capoeira Malês, antigo
grupo Quilombo do Queimado. Nós ensinamos a prática
de Capoeira Contemporânea, uma entoxicante e energética
forma de auto defesa, musica e movimentos harmoniosos, a todos
os interessados em aprender esta arte. Todas as idades e níveis,
desde iniciates a praticantes ativos, são bem vindos. Nossa
escola está localizada em Seattle, WA no Old Rainier Brewery;
também temos escolas em Renton e varia outras localidades
nos Estados Unidos, Canada, México e Brasil.
Veja nossa página especial de eventos para
ficar atualizado nas novidades. Nossos principais valores são
crescimento cultural e cooperação. Nossa missão
é ser e prestar um serviço social disponível
a todas as pessoas. Temos "bolsa de estudos" para quem
precise. A Capoeira Contemporânea alcançou reconhecimento,
não só nacional, mas também mundial, tornando-se
o que hoje é: um esporte, um jogo, uma forma de expressão
artisitica de liberdade e, acima de tudo, uma Arte Marcial. Em
1928, Mestre Bimba (Manoel dos Reis Machado), criou a Luta Contemporânea
Bahiana, ou Capoeira Regional; uma fusão da Capoeira Angola
com uma antiga forma de luta chamada Batuque. No Grupo Capoeira
Malês, praticamos o que hoje é chamado de Capoeria
Contemporânea, uma evolução da Capoeira, que
assimila a evolução dos movimentos tradicionais
com o espetáculo e precisão da arte de Mestre Bimba.
Herança africana legada à cultura brasileira, o
jogo da Capoeira significa valioso contributo à formação
da nossa identidade cultural. Com o aprendizado da Capoeira, ampliam-se
as possibilidades de compreensão da nossa história
onde se insere esta arte e que preservou a lembrança das
lutas sociais que forjaram a cidadania brasileira.
A Arte da Capoeira, uma dança negra com
muitos rituais. Brincadeira de movimentos com malícia.
Na dança negra de pés no chão a agilidade
da esquiva e a esperteza da fuga... e, de repente, ante os olhos
surpresos do adversário, o gesto rápido, o ataque
fulminante. Então, abatido, o inimigo se dá conta
de que foi vítima da mandinga. Isto, se ainda tiver vida...
CAPOEIRA: A ARTE NEGRA
A dança - enquanto forma de expressão
corporal - possui uma linguagem onde cada gesto significa e representa
idéias e sentimentos. Emoções. Sensações.
O jogo da Capoeira é a síntese da
dança. A sua essência, disfarçada em brinquedo.
Vadiação. Distração de quem busca
extravasar cada função interior nos gestos exteriores.
É na dança que se manifesta a tradição
milenar da cultura negra de reverenciar as origens. Isto ocorre
cada vez que se repetem gestos ancestrais. Renovados. Conduzindo
ao reconhecimento da necessidade de manter viva a ligação
com os antepassados, que praticaram os mesmos atos. Nisto reside
a grandeza da dança negra. Ritual. E no respeito aos que
geraram a vida, a beleza maior.
O balanço dos braços, o arremesso
dos pés, o meneio do tronco e dos quadris, a harmonia de
todo o corpo em gestos que não perdem a continuidade. Como
se fora um ininterrupto perambular pelo círculo, em estreita
ligação com o solo.
A Capoeira consiste numa dança onde o emprego
dos movimentos arriscados - dado à circunstância
de camuflar possível contenda - envolve os participantes
e contagia quem assiste. Como não se deixar empolgar pela
combinação de bela plástica humana nos movimentos
despojados, com o evidente fascínio da dança e a
alegria de uma festa? É ainda muito mais a dança
da Capoeira. O contato com o chão, intenso como o vínculo
dos filhos com a mãe. Que envolve e protege, criando a
vida e assistindo a todos, silenciosa. Acolhendo a dança,
que é também em seu louvor.
A postura reverente dos capoeiras uns com os outros,
para com o jogo, a terra, o berimbau, o atabaque, se explica no
propósito maior da dança: unir. Ligar estreitamente,
como as mãos que se apertam ao final de cada jogo, na saudação
dos camarás. Luta negra. Com a força dos ritos.
Preservando mitos. Participando ativamente da resistência
comum às variadas formas de dominação: cultural,
física... Bastião erguido em defesa da nossa identidade
coletiva, a Capoeira não foi somente um fermento revolucionário
- ela é realmente um instrumento de transformações,
apesar do grande cerco que sofreu e sofre ainda hoje. Dos que
tentam levá-la à padronização esportiva
ou reduzi-la a mera forma de defesa pessoal, sugerindo sua definição
como arte marcial. (Retirado do Livro A Arte da Capoeira de Camile
Adorno).
MESTRE CURISCO BIOGRAFIA
Mestre Curisco nasceu em Ipatinga, MG. Começou
a ensinar Capoeira em Seattle há 7 anos a pedido de um
pequeno grupo de estudantes. Desde sua chegada, o grupo originalmente
composto por 5 alunos, hoje cresceu internacionalmente tornando-se
o que hoje é o Grupo Capoeira Malês. Mestre Curisco
começou na Capoeira com 5 anos de idade. Seu pai, Gerson
Frias, jogava a "Capoeira da velha escola" em meados
dos anos cinquênta e foi ele quem iniciou seu filho nos
movimentos básicos. Seu pai não tinha muito tempo
para ensinar, pois precisava trabalhar na usina local para sustentar
seus 8 filhos e filhas.
Aos 11 anos, uma escola de Capoeira foi aberta
em seu bairro, foi então que Mestre Curisco iniciou formalmente
eu aprendizado. Mestre foi graduado como professor aos 16 anos.
Fundou sua primeira escola na garagem da casa de sua mãe,
a qual ainda lhe pertence. Foi graduado como Mestre em 2000 aos
26 anos.
Enquanto ainda vivia no Brasil, Mestre Curisco
participou do desenvolvimento de um projecto da prefeitura local
para ensinar e treinar crianças carentes. Muitas das quais
deixaram as drogas e a vida de rua... muitas delas ainda são
Capoeiristas hoje em dia. Mestre Curisco veio aos Estados Unidos
pela primeira vez em 1996, após ter sido convidado a participar
de um Evento Internacional em Vancouver no Canada, onde passou
alguns meses ensinando e logo voltou ao Brasil. Em 1997, retornou
e ficou por um ano no Canada ensinando e fazendo shows e demostrações.
Em 1999, veio aos EUA para participar de um evento
internacional de Capoeira na Universidade de Whasington em Seattle.
Depois disto, iniciou seus ensinos na mesma cidade. Fez muitos
workshops, e participou de diversos eventos culturais como o Brazil
Fest, Folk life Festival etc. Em 2001 abriu sua primeira escola
ainda sob o nome de Grupo Quilombo do Queimado.
Hoje, Mestre Curisco tem o Grupo Capoeira Malês,
o qual da a oportunidade, a comunidade de Seattle, de aprender
sobre a cultura brasileira e a Arte da Capoeira. Ele vem ensinando
Capoeira por mais de 15 anos; é o que ele ama fazer.
Seu trabalho é reconhecido em muitos lugares
no mundo, como EUA, Canada, México, Europa e Brasil.
Em seus ensinos, Mestre enfatiza disciplina, humildade
e auto motivação. Dedica-se a trazer as raízes
da Capoeira e da cultura brasileira a seus estudantes. O grupo
participa de vários programs sociais como o Boys and Girls
Club, escolas públicas de Seattle e o Bellevue Community
College.
Capoeira é historia e e tradição
Eleva o espírito e me inspira Jogo capoeira para libertar
minha alma Estou falando de capoeira Eh Capoeira ai aia. - Eh
Capoeira
O Grupo Capoeira Malês tem em seu nome a
lembrança e homenagem a Revolta dos Malês, a qual
ocorreu em 1835, e foi a mais importante rebelião escravagista
da historia brasileira.
Durante as primeiras décadas do século
XIX várias rebeliões de escravos explodiram na província
da Bahia. A mais importante delas foi a dos Malês, uma rebelião
de caráter racial, contra a escravidão e a imposição
da religião católica, que ocorreu em Salvador, em
janeiro de 1835. Nessa época, a cidade de Salvador tinha
cerca de metade de sua população composta por negros
escravos ou libertos, das mais variadas culturas e procedências
africanas, dentre as quais a islâmica, como os haussas e
os nagôs. Foram eles que protagonizaram a rebelião,
conhecida como dos "malê", pois este termo designava
os negros muçulmanos, que sabiam ler e escrever o árabe.
Sendo a maioria deles composta por "negros de ganho",
tinham mais liberdade que os negros das fazendas, podendo circular
por toda a cidade com certa facilidade, embora tratados com desprezo
e violência. Alguns, economizando a pequena parte dos ganhos
que seus donos lhes deixavam, conseguiam comprar a alforria.
Em janeiro de 1835 um grupo de cerca de 1500 negros,
liderados pelos muçulmanos Manuel Calafate, Aprígio,
Pai Inácio, dentre outros, armou uma conspiração
com o objetivo de libertar seus companheiros islâmicos e
matar brancos e mulatos considerados traidores, marcada para estourar
no dia 25 daquele mesmo mês. Arrecadaram dinheiro para comprar
armas e redigiram planos em árabe, mas foram denunciados
por uma negra ao juiz de paz. Conseguem, ainda, atacar o quartel
que controlava a cidade mas, devido à inferioridade numérica
e de armamentos, acabaram massacrados pelas tropas da Guarda Nacional,
pela polícia e por civis armados que estavam apavorados
ante a possibilidade do sucesso da rebelião negra.
No confronto morreram sete integrantes das tropas
oficiais e setenta do lado dos negros. Duzentos escravos foram
levados aos tribunais. Suas condenações variaram
entre a pena de morte, os trabalhos forçados, o degredo
e os açoites, mas todos foram barbaramente torturados,
alguns até a morte. Mais de quinhentos africanos foram
expulsos do Brasil e levados de volta à África.
Apesar de massacrada, a Revolta dos Malês serviu para demonstrar
às autoridades e às elites o potencial de contestação
e rebelião que envolvia a manutenção do regime
escravocrata, ameaça que esteve sempre presente durante
todo o Período Regencial e se estendeu pelo Governo pessoal
de D. Pedro II.
REVOLTA DOS MALÊS
Origem: Wikipédia, a enciclopédia
livre. A chamada Revolta dos Malês registrou-se de 25 a
27 de Janeiro de 1835 na cidade de Salvador, capital da então
Província da Bahia, no Brasil. Consistiu numa sublevação
de caráter racial, de escravos africanos das etnias hauçá
e nagô, de religião islâmica, organizados em
torno de propostas radicais para libertação dos
demais escravos africanos. O termo "malê" deriva
do iorubá "imale", designando o muçulmano.
Foi rápida e duramente reprimida pelos poderes constituídos.
Antecedentes Durante as primeiras décadas
do século XIX a situação dos africanos no
Brasil, em particular na então Província da Bahia,
onde eram mais numerosos, era peculiar. Muitos deles, na condição
de escravos, exerciam ofícios rentáveis (alfaiates,
carpinteiros, vendedores ambulantes, acendedores de lampião),
cujos ganhos eram repassados aos seus senhores. Denominados como
negros de ganho, alguns, economizando a pequena parte que seus
senhores lhes deixavam, conseguiam mesmo comprar a alforria.
Mesmo na condição de libertos, os
africanos eram tratados com desprezo e não tinham qualquer
possibilidade de ascensão social. Esta situação
levava os africanos a revoltarem-se contra os dominadores brancos,
registrando-se, entre 1807 e 1830, quase vinte rebeliões
naquela Província.
Naquela época, a cidade de Salvador tinha
cerca de metade de sua população composta por negros
escravos ou libertos, das mais variadas culturas e procedências
africanas, dentre as quais a islâmica, como os hauçás
e os nagôs. Foram eles que protagonizaram a rebelião
mais conhecida, a dos "malê", pois este termo
designava os negros muçulmanos, que sabiam ler e escrever
o árabe. Sendo a maioria deles composta por "negros
de ganho", tinham mais liberdade que os escravos das fazendas,
podendo circular por toda a cidade com certa facilidade.
O plano de ação dos malês
Planejada por elementos que possuíam experiência
anterior de combate, na África, de maneira geral, os malês
propunham o fim do catolicismo - religião que lhes era
imposta -, o assassinato e confisco dos bens de todos os brancos
e mulatos e a implantação de uma monarquia islâmica,
com a escravidão dos não muçulmanos.
De acordo com o plano de ataque, assinado por
um escravo de nome Mala Abubaker, os revoltosos sairiam da Vitória
(atual bairro da Barra, em Salvador) "tomando a terra e matando
toda a gente branca". De lá rumariam para a Água
dos Meninos e, depois, para Itagipe, onde se reuniriam ao restante
das forças. O passo seguinte seria a invasão dos
engenhos do Recôncavo e a libertação dos escravos.
A revolta dos Malês
Desde 1834, um grupo liderado por Manuel Calafate,
Aprígio, Pai Inácio, entre outros, tramou uma conspiração
com o objetivo de libertar seus companheiros islâmicos e
assassinar os brancos e os mulatos, estes considerados como traidores.
Para esse fim, redigiram planos em árabe e arrecadaram
dinheiro para comprar armas, elegendo como data para o levante
o dia 25 de Janeiro, um domingo, quando ocorreria a festa católica
em homenagem a Nossa Senhora da Guia, ocasião em que era
relaxada a vigilância sobre os escravos. Entre os escravos
e os libertos, desde o dia 24, sábado, corriam rumores
sobre o levante. Nesse mesmo dia, o liberto Domingos Fortunato,
contou o que sabia a sua esposa, Guilhermina Rosa de Souza, mandando
um recado para a seu antigo senhor sobre o plano, sem ser considerado.
O mesmo o fez Guilhermina, a seu antigo senhor, Souza Velho, e
a um vizinho branco, que transmitiu as informações
ao Juiz de Paz. Desse modo, as autoridades de Salvador tomaram
conhecimento à noite do plano, tomando de imediato as medidas
para a repressão. Formadas as patrulhas, estas passaram
a vasculhar as casas de africanos conhecidas na cidade. Em uma
delas, na loja de um sobrado na ladeira da praça, estavam
reunidos de cinquenta a sessenta indivíduos, ultimando
os preparativos para a revolta. Antes que a patrulha lograsse
arrombar a porta, os revoltosos atacaram aos gritos de "mata
soldado" e, conseguindo romper o cerco, evadiram-se em diversos
grupos.
Ainda durante a madrugada do dia 25 um grupo tentou
tomar de assalto a Cadeia Municipal, com a intenção
de libertar Pacífico Licutan, um dos líderes malês.
Sem conseguir o seu intento, o grupo foi dispersado pelos soldados.
Com a agitação se alastrando em
algumas horas pelas ruas da cidade, os revoltosos foram se agrupando
na praça do Teatro (atual praça Castro Alves).
A repressão pelas autoridades
Ao mesmo tempo, as autoridades também se
organizaram com rapidez, conseguindo repelir os ataques aos quartéis
de Salvador, colocando em fuga os revoltosos. Ao procurar sair
da cidade, um grupo de mais de 500 revoltosos, entre escravos
e libertos, foi barrado na vizinhança do Quartel de Cavalaria
em Água dos Meninos, onde se deram os combates decisivos,
vencidos pelas forças oficiais, mais numerosas e bem armadas.
No confronto morreram sete integrantes das tropas
oficiais e setenta do lado dos revoltosos. Duzentos e oitenta
e um, entre escravos e libertos, foram detidos no Forte do Mar
e levados aos tribunais. Suas condenações variaram
entre a pena de morte para quatro dos principais líderes,
os trabalhos forçados, o degredo e os açoites. Entre
os pertences dos líderes foram encontrados livros em árabe
e orações muçulmanas.
À época, os africanos foram proibidos
de circular à noite pelas ruas da capital e de praticar
as suas cerimônias religiosas típicas. Apesar de
rapidamente controlada, a Revolta dos Malês serviu para
demonstrar às autoridades e às elites o potencial
de contestação e rebelião que envolvia a
manutenção do regime escravocrata, ameaça
que esteve sempre presente durante todo o Período Regencial
e se estendeu pelo Governo pessoal de D. Pedro II.
A HISTÓRIA DO LEVANTE DOS MALÊS
João José Reis. Rebelião
escrava no Brasil: a história do Levante dos Malês
(1835). São Paulo: Companhia das Letras, 2003, 665p. Acontecimento
singular na história brasileira, uma revolta de escravos,
na maioria muçulmanos, ocorrida na Bahia em 1835, o Levante
dos Malês vem despertando a atenção de muitos
pesquisadores e já recebeu as mais diversas interpretações.
No entanto, o trabalho que em nossa opinião apresenta a
análise mais completa sobre o Levante é o livro
do professor da Universidade Federal da Bahia João José
Reis, o já clássico Rebelião escrava no Brasil:
a história do Levante dos Malês (1835) , editado
pela primeira vez em 1986 pela Brasiliense e há muito esgotado.
Pois foi com imensa alegria que se recebeu a notícia de
sua republicação pela Companhia das Letras. Uma
edição revista e ampliada, com 665 páginas,
ricamente ilustrada e acrescida de um glossário de termos
religiosos muçulmanos, detalhadas fontes bibliográficas
e notas.
João José Reis apresenta ao longo
da obra os aspectos mais relevantes da revolta. Mostra que, apesar
de o Levante dos Malês se situar num período especialmente
conturbado da vida nacional e geralmente ser classificado como
mais uma "revolta do Período Regencial", essa
ligação existe mas é secundária. O
Levante pertence, antes de tudo, à tradição
de rebeliões escravas na Bahia. Nessa época ocorreram
várias, sendo a Rebelião Malê a mais grave
e a última delas. Ela possui uma outra singularidade em
relação às demais: a presença majoritária
de muçulmanos (daí o nome de Malê, como os
negros muçulmanos eram chamados na Bahia). Reis aponta
ainda como fator significativo a forte presença em Salvador
da escravidão de ganho (escravos que passavam o dia vagando
pela cidade, prestando algum serviço ou vendendo mercadorias
e obrigados a entregar a seus senhores um certo valor ao final
do dia, podendo ficar com o excedente). É inegável
a maior "liberdade" que esse tipo de escravidão
oferecia para os contatos pessoais, os cultos religiosos e também
para a organização de revoltas. Por isso, em geral,
a rebeldia escrava nas cidades assumia a forma da revolta, ao
passo que nas fazendas do interior ela se expressava como fuga
para os quilombos.
O autor dedica um capítulo à descrição
da revolta e o faz de forma tão viva que transporta o leitor
para as vielas da cidade de Salvador de 1835. Mostra que a rebelião
(que deve ter contado com até 600 participantes) durou
apenas algumas horas, nas quais os revoltosos se tornaram senhores
das ruas de Salvador. Revela também que ela repercutiu
em todo o Império e no exterior, permanecendo por longo
tempo na memória das classes dominantes da Bahia e mesmo
da Corte, que tomaram diversas medidas para impedir que outro
movimento similar ocorresse. A começar pela repressão
aos envolvidos, descrita com detalhes pelo autor. Grande parte
deles foi condenada a penas de castigo (chibatadas) e prisão.
Um número considerável (libertos em geral) foi deportado
para a África (primeira vez que essa pena foi instituída
no Brasil) e uma menor parcela terminou condenada à morte.
Reis mostra que praticamente todo o núcleo organizador
da revolta e a maior parte dos participantes eram muçulmanos.
Quanto à sua etnia, a imensa maioria dos revoltosos tinha
origem iorubana: majoritariamente nagôs, mas também
hauçás, ewes e outras etnias iorubanas. O autor
revela ainda a pequena participação de etnias originárias
de Angola (Angola e Benguela), sendo quase inexistente a presença
de grupos da Costa do Ouro (Costa e Mina) [1]. O autor se refere,
por fim, a uma parcela ínfima de crioulos (negros nascidos
no Brasil) e pardos. A maioria esmagadora era realmente de africanos.
Quanto à condição social e de trabalho dos
revoltosos, a maior parte era composta de escravos, mas havia
um grande número de libertos (algo em torno de 60% e 40%,
respectivamente). Por certo eles estavam entre os miseráveis
da sociedade, sendo que apenas um ou dois libertos revoltosos
tinham uma condição econômica um pouco melhor.
As ocupações mais comuns entre eles eram os serviços
urbanos em geral, trabalho doméstico, artesanato e vendas.
A maioria dos escravos participantes na revolta pertencia à
categoria de escravos de ganho, enquanto um número menor,
mas considerável, fazia serviços domésticos.
Para Reis, o Levante pode ser explicado através
de um tripé: religião, etnia e escravidão.
Como influência secundária, ele alude ao período
conturbado no Brasil (e especialmente na Bahia) no qual a revolta
se deu. O que pode parecer à primeira vista uma saída
fácil para a questão e um simples somatório
de fatores se mostra, na realidade, uma interpretação
que melhor contempla a complexidade do processo histórico
que levou ao Levante. Tampouco é um somatório de
várias idéias: Reis considera criticamente as visões
anteriores sobre o Levante e retrabalha alguns elementos de outros
autores, partindo sempre de um mergulho na sociedade baiana do
período, tarefa até então não realizada.
Reis afirma que nunca teve dúvidas acerca
da inspiração religiosa do movimento. Para ele,
a ideologia da Revolta de 1835 foi o islã e seu núcleo
dirigente era malê. Mas a importante presença muçulmana
que o distingue dos demais movimentos de africanos não
pode ocultar outros fatores que mobilizaram os participantes do
Levante, percebidos por Reis em depoimentos de época, principalmente
dos seus envolvidos. Ao mesmo tempo que muitos participaram motivados
pela fé muçulmana, outros o fizeram por serem nagôs
fundamentalmente. Aqui é necessário abrir um parêntese:
o limite entre a identidade étnica e a identidade religiosa
era muito maleável nos africanos da Bahia daquele período.
A identidade étnica deles era extremamente dinâmica,
transformando-se em algo diferente daquela que existia em solo
africano. Por outro lado, o islã, apesar de ser uma religião
universalista, tinha aqui um particularismo étnico, pois
estava mais difundida em certas etnias, como no caso dos próprios
nagôs e dos hauçás. Assim diz o próprio
Reis: "Embora o islamismo não seja uma religião
étnica [...], ele parece ter se tornado exatamente isso
nesta rebelião específica, por haver representado
sobretudo a força espiritual e política de negros
nagôs" (p. 349).
Ademais, o autor sustenta que haveria a identidade
escrava, de classe: "O movimento de 1835 se beneficiou da
solidariedade coletiva associada ao trabalho urbano. Chamemos
a isto de uma dimensão de classe da revolta, mas classe
no sentido dinâmico empregado por E. P. Thompson" (p.
386). Em outro texto, Reis acrescenta: "A rebelião
teria tido também uma orientação de classe
por ter sido feita e dirigida majoritariamente por escravos e
porque a linguagem anti-senhorial dos presos revela sua face antiescravista.
Foi também assim considerada pelo Estado escravocrata,
que definiu, reprimiu e castigou os rebeldes acionando uma linguagem
e uma legislação especificamente antiescrava."
Em suma, João José Reis apresenta sua leitura do
Levante dos Malês como uma combinação de luta
religiosa, étnica e de classe. O autor é ousado
ao interligar elementos que seriam inconciliáveis para
muitos. Aproveitando o que há de melhor nos trabalhos anteriores
sobre o Levante, Reis realça a religião muçulmana
como o seu motor principal, ressalvando não ser ele o único
e que essa marca não significa que os malês estivessem
dando prosseguimento à jihad africana em solo baiano. No
entanto, o elemento "de classe" sublinhado por Reis
na revolta merece alguns comentários. Parece claro que
a condição econômica inferior dos envolvidos
tem sua participação na arregimentação
de participantes para a revolta, mas isso não implica necessariamente
uma interpretação do Levante como uma luta de classes
entre escravos e senhores. Há uma participação
maior de escravos que de libertos, mas a diferença é
pequena (algo em torno de 20%). Reis não considera isso
relevante, afirmando que os próprios libertos estariam
vinculados a uma relação que remetia à escravidão,
estando submetidos aos senhores escravocratas. No entanto, essa
relativização da condição de liberto
encontra limitações. Com todas as dificuldades que
pudessem enfrentar, os libertos estavam numa posição
muito diferente da dos escravos, observando-se vários casos
de libertos que possuíam seus próprios escravos.
Um mergulho nas declarações dos
envolvidos nos processos (a fonte principal de Reis) mostra que
os planos para depois da vitória eram de massacre dos brancos,
mulatos e crioulos (negros nascidos no Brasil), eventualmente
com a escravização de mulatos e o possível
massacre dos africanos que porventura se colocassem contra a revolta.
Esses planos, e outras declarações, revelam que
o Levante era entendido como uma luta da "terra de negro"
contra a "terra de branco", nos dizeres dos próprios
participantes. O que isso significava? Significava que a revolta
era uma luta dos africanos (escravos ou não) contra os
"brasileiros" nascidos no Brasil (senhores ou não,
brancos ou negros) e, eventualmente, contra os africanos que se
colocassem ao lado dos "brasileiros". Nesse confronto,
os rebeldes consideravam os crioulos e mulatos aliados dos brancos
(identificação que provinha do fato de haverem nascido
na "terra de branco").
Essa intrigante divisão entre a "terra
de branco" e a "terra de negro" merece um estudo
mais aprofundado. Em última instância, ela deverá
ter ligação com a condição escrava
dos africanos. Foi por causa dessa condição que
eles foram arrancados de sua terra e trazidos para terra estrangeira,
sendo ela o motivo de sua posição subalterna. Mas
os revoltosos não se viam como escravos em luta contra
seus senhores. E nem mesmo os que enfrentaram a revolta assim
agiram nessa polarização escravo/senhor, como o
próprio Reis observa: "Os laços de cultura
e nacionalidade uniram contra os africanos os mais poderosos e
os mais miseráveis dos brasileiros, mesmo os que não
possuíam escravo algum, ou que eram eles próprios
escravos" (p. 546). De qualquer modo, parece inegável
a dimensão política da revolta, já que a
questão do poder (e também social) se colocava para
os seus participantes. O autor tem razão ao apontar esse
aspecto e está fora de dúvida também que
nessa reedição ele o trata de forma mais ampla e
convincente que no texto da primeira edição do livro.
O número consideravelmente maior de páginas faz
de Rebelião escrava no Brasil: a história do Levante
dos Malês a mais completa sobre o tema da revolta de 1835.
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